Religião e Política podem se misturar?

Eu já havia sido convidado pelo David para escrever algum artigo para o blog Espaço do Diálogo. A inspiração não surgia e eu sempre ia adiando o envio de um texto que pudesse deixar o máximo de pessoas pensando e refletindo. Pois bem, depois de uma notícia nada agradável, a inspiração chegou e o texto está saindo neste preciso momento. Pensava, comigo mesmo, que a inspiração ia ser minimamente boa (ou não tão má), mas o meu país, o Brasil, não deixa de me surpreender – infelizmente pela negativa.

Ontem me deparei com uma notícia que um membro de segunda geração do Opus Dei poderia ser nomeado para o lugar de Teori Zavascki como ministro do STF. Me certifiquei de que não era um simples boato de um único jornal com o intuito de ganhar clicks. Infelizmente não era tão boato assim.

Mas o que isso tem de tão negativo? Tudo! Mas em primeiro, alguns podem se perguntar o que é Opus Dei? “O Opus Dei é uma sociedade do filme O Código da Vinci”. Não! O Opus Dei não é ficção hollywoodiana, nem faz parte do imaginário de Dan Brown. O Opus Dei é real, é uma organização antiga e, dentro da política, poderá ser perigosa.

A Prelazia da Santa Cruz e Opus Dei (ou simplesmente Opus Dei) é uma prelazia pessoal católica ultraconservadora e fundamentalista, que tem como finalidade auxiliar a Igreja Católica na sua missão evangelizadora. O termo “Opus Dei” deriva do latim e significa, pura e simplesmente, “Obra de Deus”. Uma prelazia pessoal é uma figura jurídica da Igreja Católica que está prevista no Código de Direito Canônico (como se fosse a Constituição da Igreja). O que isso significa? Que ela dá aos seus membros o direito de seguir ordens do Prelado (o líder máximo do Opus) em vez de obedecer a ordens e autoridades regionais católicas. Em linguagem popular, o Opus Dei é um braço independente da Igreja que não deve satisfações ou explicações a ninguém a não ser ao Prelado e ao Papa (que é quem elege o Prelado do Opus Dei). Segundo o site oficial da organização (www.opusdei.org), atualmente, são 90 mil membros, dos quais “98% são leigos, homens e mulheres, e a maioria casados” (sim, porque existem membros leigos, fora do Clero, que optam por seguir o voto celibatário, igual a padres, bispos e sacerdotes). 90 mil pessoas que apenas respondem a dois homens. Já imaginaram o perigo que pessoas destas, com algum poder na mão, podem causar?
A Prelazia foi fundada por Josemaría Escrivá de Balaguer, sacerdote espanhol, em 1928. Para se ter ideia da importância do Opus Dei no seio da Igreja Católica, o fundador da organização foi canonizado em tempo record (apenas 27 anos após a sua morte) em 2002 por João Paulo II, ou seja, o fundador de uma organização ultraconservadora e fundamentalista virou, pura e simplesmente, Santo. Interessante a Igreja Católica ter como santo um homem que foi confessor de Francisco Franco e de vários ministros da Ditadura Espanhola. No site institucional do Opus Dei, nos é dito que “O Opus Dei nasceu na Igreja e está na Igreja, para servir à Igreja. Esta é a sua razão de ser.”. Até aqui não levanto objeções, pois, teoricamente, se está dentro da Igreja não interfere na minha vida pessoal. Exceto quando o Opus Dei tenta se infiltrar na política de um país. A organização chegou ao nosso país por volta dos anos 50. Inicialmente teve sede em Marília, cidade do interior paulista mas acabou por se mudar para a capital, onde tem centros em bairros como Pacaembu, Vila Mariana, Itaim Bibi e Pinheiros. Para uma sociedade que se diz da Igreja de Cristo, que foi (teoricamente) um ser humilde e do povo, que nasceu numa manjedoura de palha, ao relento, com uma vaca e um burro ao lado para o aquecer, os seus centros serem localizados nos bairros mais nobres da cidade de São Paulo é, no mínimo, estranho. Mas quando se trata de poder e dinheiro, nada acaba por parecer estranho para a grande maioria. Mas é aqui que podemos encontrar a primeira incoerência da sociedade que se diz “da Igreja para servir à Igreja” … A não ser que o plano seja outro.

Falemos um pouco do possível novo membro para a paste de ministro do STF: Ives Gandra da Silva Martins Filho, jurista e magistrado brasileiro de muito respeito no meio. Ives é filho de Ives Gandra da Silva Martins, homem que afirma “conhecer intimamente” o grupo religioso há décadas. Ives “Pai” é, alegadamente mas com quase total confirmação, membro do Opus Dei desde a década de 60, o que faria dele um dos membros mais antigos do Opus Dei no Brasil e seria tido como um dos principais supernumerários da organização no país. Ives Gandra Filho, presidente do TST (Tribunal Superior do Trabalho) tem frases “emblemáticas” que foram escritas e inseridas em um artigo que faz parte do livro “Tratado do Direito Constitucional” de 1992, coletânea organizada por Gilmar Mendes (ministro do Supremo Tribunal Federal na atualidade), Ives Gandra “pai” e pelo advogado e escritor Carlos Valder do Nascimento, que denotam algum sentimento discriminatório no que toca à unidade família e a casais homossexuais, como por exemplo:

– “Para o homem moderno, o prazer sexual deixou de ser meio e passou a ser fim em si mesmo. […] tirar as consequências morais e jurídicas quanto ao comportamento adequado à natureza racional do homem.”. Como já foi visto, alguns membros do Opus Dei fazem voto celibatário e parece que Ives Gandra Filho é adepto dessa vertente. No seu foro pessoal nada tenho a dizer, mas ele não deve trazer isso para a democracia;

– “Não obstante todas as vozes que se levantam em favor de uma suposta igualdade de direitos entre casais hetero e homossexuais, o fato é que não é possível igual o que, por lei natural, é desigual.”. O que demonstra um profundo desrespeito para com a igualdade de cidadãos, independentemente da orientação sexual dos mesmos, conforme descrito no Artigo 5º da Constituição Federal de 1988 “Todos são iguais, perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes…”

– “O divórcio (ruptura do vínculo matrimonial) vai, pois, contra a lei natural, não se justificando como solução para os casos limite, já que a lei não existe para generalizar a exceção, mas para determinar a regra geral, que atenda ao bem comum e não ao particular. A admissão do divórcio no direito positivo tem ocasionado apenas: maior número de separações, qualquer desavença é motivo de separação, sem se buscar solucionar a questão; maior número de filhos desajustados, carência do componente paterno ou materno na constituição do caráter; maior despreparo para o casamento, precipitação e desconhecimento temperamental prévio, fundado na possibilidade do divórcio se a experiência não for satisfatória.”. Aqui, Ives Gandra Filho nos mostra que, apesar de qualquer coisa o divórcio é algo ruim, pois vai contra “a lei natural”. “Qualquer desavença é motivo de separação, sem se buscar solucionar a questão” … Quantas vezes vimos mulheres que tentam se afastar do marido, pedindo inclusive medidas protetivas e acabaram assassinadas?

– “O princípio da autoridade na família está ordenado de tal forma que os filhos obedeçam aos pais e a mulher ao marido.”. Então a mulher terá que baixar a cabeça para as decisões do marido? E se ela não concordar terá que aceitar isso perpetuamente, pois o divórcio vai contra a lei natural?

 

E para fechar com chave de ouro:

– “Contudo, isso não é o mesmo que dizer que os casais homoafetivos devem gozar, irrestritamente, dos mesmos direitos de que gozam os casais de orientação heterossexual, sob pena mesmo de se deturpar o conceito de família, em termos antropológicos e sociológicos”.

Como se isto não bastasse, o cenário ainda piora. Além de Ives Gandra Filho ser um magistrado respeitado no meio, presidente de um dos Tribunais Superiores do Brasil, é filho de um amigo de longa data do atual presidente da República, Michel Temer e conta com o apoio de nomes de peso na política e do universo monetário brasileiro como Paulo Skaf (presidente da FIESP). A conjuntura de interesses políticos ainda vai mais longe: Ives Gandra Filho é um dos magistrados que apoia a reformulação dos direitos trabalhistas brasileiros na Reforma que Michel Temer quer pôr em prática (pelo menos aqui concordo com Ives). E deve ser esse um dos motivos pelo qual Michel Temer apoia um fundamentalista religioso: a aprovação de leis do seu interesse. Ives Gandra Filho já tem uma posição privilegiada na política brasileira, por ser o presidente do Supremo Tribunal do Trabalho Brasileiro e, Michel Temer, tem um aliado importante com uma patente alta, para dar aval à Reforma Trabalhista que está sendo estudada por ele. Outro fator decisivo para a nomeação de um velho conhecido da família, filho de um dos amigos políticos de longa data do nosso presidente é uma maior proteção, pois Temer e Skaf podem ser delatados no caso Lava-Jato, pelos delatores da Odebrecht. Tendo um aliado no STF poderia, sem dúvida alguma, os ajudar. O STF é composto por 11 membros, mas atualmente um lugar está livre, devido à morte de Teori Zavascki. Temer, juntamente com seus aliados, podem estar tentando colocar alguém da sua confiança dentro do STF para se sentirem mais protegidos. “Mas um homem no meio de onze não consegue fazer nada”. Isso pode ser verdade na teoria, mas não nos podemos esquecer que Gilmar Mendes já está lá e que Ives Gandra Filho seria mais um homem de confiança de Temer e seus aliados. Fora isso, um homem filiado a organizações que não pagam impostos e que teve, em sua história, uma sociedade que cobrava impostos indeliberadamente e sem pagar nada a ninguém durante quase 200 anos, consegue, certamente, arrecadar fundos para subornar outras pessoas.

E aqui entramos no ponto mais delicado e mais importante no meio desta possível nomeação: o dinheiro! O dinheiro comanda o mundo, principalmente no mundo dos negócios e no mundo da política. Vou colocar duas definições e quero que vocês, desse lado, tentem diferenciar uma de outra:

A – “O Opus Dei participa na missão evangelizadora da Igreja, difundindo a vida cristã no Mundo, no trabalho e na família”;

B – “Os Templários estão intimamente ligados às Cruzadas (Cruzadas = todo o conflito sancionado e autorizado pela Igreja Católica, que partiram da Europa Ocidental em direção à Terra Santa (Jerusalém, Palestina) com o intuito de as conquistar, ocupar e manter sob domínio cristão).

Ambas definições demonstram intolerância religiosa (pois pretendem empurrar uma religião, uma filosofia, uma tradição para todos). Ambas pertencem a organizações com ligações com a Igreja Católica. Os Templários (que também não fazem parte do imaginário de ninguém, indiscutivelmente foi real) foram uma das organizações mais poderosas e ricas do Mundo. Eles tinham aval do Papa, que era a entidade máxima da Europa Ocidental (que na Idade Média nada mais era que o centro do Mundo) para fazer o que quisessem, inclusive cobrar impostos e usar a força para atingir os fins. À semelhança do que se passa hoje em algumas Igrejas Evangélicas, a Ordem poderia cobrar impostos ao povo (dízimo) e não precisariam repassar nada para o Papado (Estado). Com muito poder, vem a corrupção. E com a corrupção vem o desejo de mais poder ainda. A Ordem dos Cavaleiros Templários começou a ficar muito rica e a ter muito poder e isso não agradou muito o Papa Clemente V em 1312, que por pressão do Rei Filipe IV de França (que estava em dívida com a Ordem), extinguiu a Ordem sob a acusação de heresia, fundamentadas em confissões de ex-integrantes templários que foram torturados e forçados a mentir em testemunho. O dinheiro arrecadado pela Ordem, que apenas respondia ao Papa, certamente permaneceu nas mãos do Clero e do Papado. O que a Ordem dos Cavaleiros Templários e o Opus Dei têm em comum? Ambos acreditam que a sua crença, a sua forma de pensar e a sua religião é a correta. Algo muito comum em regimes teocratas com o Afeganistão, Arábia Saudita ou Iran, em que quem não seguir a religião, tradições e costumes impostas pelo governo, se arrisca a morrer. Podemos, de forma prática, deduzir que o Opus Dei nada mais é que o ressurgimento dos ideais Templários nos tempos modernos. Claro que o Opus Dei não vai mandar bombardear uma região ou enviar um exército para Jerusalém com o intuito de evangelizar a região. Mas uma forma de continuar mantendo o poder e de conseguir manipular sistemas políticos e empresariais para dar sequência ao plano milenar de evangelização do Mundo, é se infiltrando no poder. E é isso que o Opus Dei quer com a nomeação de Ives Gandra Filho no STF. Essa infiltração de membros do Opus Dei em cargos de importância já acontece há algum tempo, principalmente no exterior. Temos os exemplos de Ruth Kelly, que é supernumerária (cargo hierárquico da organização) do Opus Dei já foi secretária da Educação e de Transportes do Reino Unido e atualmente é integrante do Parlamento Britânico; Paola Binetti, é numerária (outro cargo) da organização, médica, professora universitária e membro do Senado italiano, aonde defende posições conservadoras, como a oposição ao casamento gay e aborto; Adolfo Suárez, primeiro-ministro da Espanha entre 1976 e 1981, no primeiro regime democrático do país após a ditadura de Franco (interessante Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador do Opus, ter sido confessor do governo Franco e um de seus pupilos ter sido eleito o Primeiro-Ministro depois da revolução… terá sido coincidência?); Luis Valls, um dos banqueiros mais importantes da Espanha, foi presidente do Banco Popular (o 3º maior do país) até 2004 e é numerário do Opus; entre tantos outros membros, alguns conhecidos outros não, que têm cargos cruciais para o plano da Opus Dei.

Mas o que isto pode trazer de tão perigoso, mau e prejudicial para o nosso país? A eleição de um membro do Opus para um cargo de ministro do STF certamente será apenas o primeiro passo. Os outros passos serão a inserção de outros numerários da Prelazia para outros cargos de importância. Já vimos que Ives Gandra Filho é preconceituoso e tem um pensamento ultraconservador, que pode ir contra qualquer lei progressista que ajude a população brasileira, como a utilização de métodos contraceptivos ou a legalização do aborto. Como Ives Gandra Filho é a favor da Reforma Trabalhista de Temer, isso poderá levar a perda de alguns direitos, principalmente por parte das cidadãs brasileiras, que, segundo ele, devem ser submissas ao homem. Logo, podemos partir do princípio que ele também acredita que mulheres não podem ocupar os mesmos cargos que os homens, ou que uma mulher não pode ter um cargo de chefia em uma empresa, porque estaria acima, hierarquicamente, de homens, por exemplo. Dentro de várias regras do Opus Dei, existe uma cartilha que proíbe a leitura de alguns livros por parte dos seus integrantes. Quem nos garante que, com poder nas mãos, essa cartilha não trespasse para o público em geral. Livros como “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” de Saramago, “O Capital” de Marx, “Além do Bem e do Mal” de Nietzsche, “Ulisses” de James Joyce, entre outros, são proibidos para leitura por parte dos membros do Opus Dei.

“Ah mas isso nunca irá acontecer no Brasil!”, “Isso é teoria de conspiração!”. Porque você tem tanta certeza? Teoria da conspiração? Tenho uma reflexão para vocês fazerem para vocês mesmos:

  • Pesquise como era o Afeganistão na década de 70 e como ele é agora. Antes da Guerra Civil e com os movimentos mujahideen (aqueles que fazem parte da Jihad – A guerra santa islâmica, ultra conversadores e fundamentalistas islâmicos – assim como as Cruzadas Católicas). Mulheres afegãs podiam andar sem o hijab livremente e poderiam exercer cargos públicos livremente. Com o tempo foi piorando e chegou ao ponto que está hoje, que após o movimento fundamentalista islâmico nacionalista chamado Talibã a partir de 1994, o Afeganistão vive em um regime teocrata. Hoje em dia, com um regime baseado no extremismo religioso, será que as mulheres continuaram com os mesmos direitos que tinham na década de 60 e 70?

“Mas isso só acontece com esses mulçumanos”. Totalmente errado. Qualquer pessoa que saiba um pouco de história sabe que a Igreja Católica foi opressora. Aqueles que discordavam do que a Igreja dizia eram sentenciados à morte. Desde as vítimas da Guerra Santa Católica, até pensadores, filósofos e cientistas que faziam descobertas revolucionárias como a Teoria Heliocêntrica de Galileu e Copérnico, cujo primeiro foi vítima da Santa Inquisição e considerado herege pela Igreja Católica. A mulher ser submissa ao homem é encontrada algumas vezes na própria Bíblia Sagrada. O livro de Levítico e 1º Coríntios que condena (teoricamente, pois existe uma discussão centenária sobre a real tradução dos termos malakoi e arsenokoitai) os homossexuais. Isto foi tão real que o próprio Papa João Paulo II, no ano de 2000, emitiu um pedido forma de desculpas por todos os erros cometidos pela Igreja nos últimos dois mil anos, incluindo o julgamento de Galileu Galilei pela Inquisição. E o primeiro passo de colocar religião na política, já foi dado no Brasil: a criação e autorização da bancada evangélica no Senado. Será que se um grupo de políticos tentasse criar uma bancada mulçumana ou ateia teria autorização das entidades competentes para exercer funções? Porque podemos ter uma bancada evangélica e não uma bancada umbandista? Qual a diferença? Porque o cristianismo é mais importante do que o islamismo, por exemplo? Por que não temos uma bancada para cada religião, ou melhor, não temos qualquer interferência de religião da política brasileira? Porque existe um conflito de interesses muito grande!

O que mais desejo é que isto seja apenas uma notícia sem fundamentos e que Temer não pensa em apoiar um membro de uma organização religiosa para um cargo público… Para isso já temos a bancada evangélica, que já causa dores de cabeça suficientes.

E na sua opinião, caro leitor, o que você acha que esta nomeação pode causar no cotidiano do brasileiro a pequeno e longo prazo? Religião e política podem andar de mãos dadas? Quais os efeitos de misturar os dois?

Peço desculpas pelo longo texto, mas esta notícia realmente me deixou extremamente triste e revoltado. Uma vez mais, espero que tudo seja uma fantasia.

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